Desde os primórdios da ciência o homem aprendeu a classificar com
o intuito de compreender o mundo que nos cerca. Isto tem uma utilidade
prática. Precisamos descobrir quais plantas eram comestíveis, venenosas,
forrageiras etc.
Classificar é uma ação inerente ao comportamento humano e tem
sentido básico de organizar.
Ao longo da história, surgiram numerosos sistemas de classificação,
os quais costumam ser agrupados em quatro categorias: hábito, artificiais,
naturais e filogenéticos.
Baseadas no hábito (árvores, ervas,
trepadeiras). Os primeiros foram, evidentemente, os menos elaborados, embora seus
autores acreditassem que eles refletiam
afinidades naturais. Nestes sistemas, árvores,
ervas, trepadeiras, etc., consistiam os grupos
principais de plantas. Teophrastus (370-285
a.C.) é o nome mais célebre deste período,
sendo considerado o Pai da Botânica.
Teophrastus (370-285 a.C.)
Historia Plantarum
Das 227 obras que chegaram aos nossos dias, duas delas são sobre Botânica: - A História Natural das Plantas (De Historia Plantarum), com
posta por 9 livros; Sobre as Razões do Crescimento das Plantas (De causis
plantarum) composta por 6 livros. Os livros eram muito gerais, as espécies eram referidas apenas ocasionalmente e em alguns dos casos nem se
percebia de que espécie se tratava. Foram descritas entre 500-550 espécies.
Foi divulgado o conceito de morfologia, classificação e história. Avançado
para o seu tempo, Theophrastus introduziu a prática da aclimatação de
plantas, introduziu novos termos técnicos, distinguiu diferentes formas de
reprodução e de inflorescências, e estudou a germinação de sementes de
várias espécies.
Dioscórides foi um físico grego, que se tornou cirurgião militar de
Nero, o Imperador Romano. O seu cargo militar permitiu-lhe fazer grandes
viagens e assim estudar uma grande variedade de plantas.
Na obra De Matéria Medica, são referidas as propriedades medicinais
de mais de 600 plantas com algumas descrições botânicas, mas sem o caráter
científico das obras de Theophrastus. Descreveu raízes, caules, folhas e por
vezes flores.
Após o trabalho de Dióscorides, com plantas de uso medicinal que
vigorou até o sec. XVI, a botânica e a medicina tornaram-se indissociáveis.
Os gregos foram mais tarde sucedidos por herbalistas e botânicos
que mantiveram este período da história da classificação até a metade do
século XVIII.
Dioscorides de Anazarba (40-90 d.C.)
Página de título De Materia Medica por Pedanius Dioscorides, 1554. ( University of Virginia)
Os herbalistas
Eram médicos que deram grande contribuição ao estudo das plantas.
Andrea Cesalpino (1519-1603) era um médico italiano. É um exemplo de um importante herbalista que possui alguns nomes de plantas em sua homenagem, por exemplo: Caesalpinia echinata (pau-brasil). Recentemente essa espécie foi renomeada de Paubrasilia echinata.
Pau Brasil vira gênero de árvore
Andrea Cesalpino (1519-1603)
Paubrasilia echinata (pau-brasil).
Nesta época surgiram
os primórdios da farmacognosia e as primeiras contribuições ilustradas.
Sistemas Artificiais (séc. XVIII): essencialmente práticos, com poucos caracteres.
Não levam em conta afinidades entre os organismos. Ex.: sistema sexual de
Lineu (1707-1778).
Sistemas Naturais (séc. XVIII e XIX): buscavam afinidades “naturais” entre os
grupos, segundo um plano divino. Utilizam um número maior de caracteres.
Lamarck, Bentham & Hooker, De Candolle, Jussieu.
Dura até o advento
do “Darwinismo” surge os Sistemas Filogenéticos (séc. XIX até hoje): baseados na FILOGENIA dos grupos: histórico de relações de táxons (famílias, gêneros, espécies, populações,
etc.) através de ancestralidade e descendência (seguindo Darwin).
Assim como aqueles antigos sistemas, os sistemas artificiais não encontram hoje qualquer aplicação. Um sistema artificial tem como único objetivo ser um meio conveniente de situar uma planta dentro de uma classificação e contribuir para a sua identificação. Não tem qualquer preocupação em mostrar relações de afinidades.
O mais conhecido é o de Linné, (Carl F.
von Linné, 1707-1778), publicado na obra “Species Plantarum” (1753),
que ficou conhecido como “sistema sexual”, por ter sido o primeiro a dar
grade ênfase aos caracteres florais. Em seu sistema, Lineu reconheceu 24
classes, a última delas formada por plantas sem flores (Cryptogamia). Para
as classes com flores, os critérios utilizados foram principalmente o número
de estames, soldadura e comprimento dos filetes, e o sexo das plantas, segundo o tipo de flores que ela apresenta (Monoecia, Dioecia, Polygamia).
Linné, (Carl F. von Linné, 1707-1778)
Os sistemas filogenéticos procuram usar toda a informação disponível
no momento a respeito dos táxomas envolvidos, procurando relacioná-los
segundo uma afinidade baseada em ancestralidade e descendência.
Até a década de 1980, a Botânica foi dominada por um sistema evolucionista de classificação, baseado no grau de similaridades. Nem mesmo
a difusão de teorias evolutivas no final do século XIX levou a mudanças
significativas na classificação dos seres vivos. A evolução foi incorporada na
sistemática como explicação para classificações naturais pré-existentes.
Foi apenas após o estabelecimento da sistemática filogenética
(Hennig 1965), que os táxons passaram a ser definidos por compartilharem
características derivadas herdadas de um ancestral comum, as sinapomorfias.
O princípio primordial da sistemática passou a ser a ancestralidade, e as classificações passaram a buscar o reconhecimento exclusivo de grupos monofiléticos (ou clados, daí o nome cladística para essa escola da sistemática).
Sistemas de classificação filogenéticos ou cladístico – Nesse sistema o
agrupamento dos organismos é de acordo com o grau de parentesco entre
eles. Os cladogramas (ou árvores filogenéticas) demonstram as relações
hipotéticas entre os organismos, levando em consideração a sua história
evolutiva dos seres.
As semelhanças entre os organismos são consequências da existência
de um ancestral comum, a partir do qual os grupos divergiram ao longo
do tempo. O grau de semelhança entre eles está relacionado com o tempo
em que ocorreu a divergência.
Os resultados de uma análise cladística são geralmente expressos na
forma de cladogramas, ou seja, diagramas ramificados que expressam
relações de parentesco entre os táxons incluídos na análise (chamados de
terminais ou táxons terminais). Consiste, graficamente, de uma série de linhas (ramos) que conectam esses terminais. O encontro de ramos define
um nó, que é considerado um ancestral hipotético do grupo definido por
aquele nó. É importante ressaltar que cladogramas representam hipóteses
sobre a filogenia de um grupo, ou seja, não é sua filogenia real e sua obtenção depende do método usado na análise.
A sistemática à luz da genética molecular
Na atualidade a sistemática vegetal usa técnicas moleculares a partir da análises de variação no genoma de cloroplastos
em particular, e, em menor extensão, de segmentos do genoma nuclear
incrementaram grandemente nosso entendimento da filogenia das plantas
em todos os níveis taxonômicos. Um dos objetivos centrais da
sistemática tem sido inferir relações genéticas entre grupos de organismos.
Uma vez que os dados moleculares (sítios de restrição e sequenciamento
de bases nucleotídicas do DNA) provêm o genótipo do organismo, eles
fornecem uma evidência mais precisa das relações de parentesco do que
podem fazer os caracteres fenotípicos, que podem ser modificados pelo
ambiente. Além disso, a homologia de caracteres moleculares é tipicamente
mais facilmente alcançada. Atualmente, sequencia de rbcL do genoma de
cloroplastos podem ser analisados para a reconstrução das relações filogenéticas entre famílias, ordens e níveis hierárquicos superiores, enquanto
sequências nucleares de genes de RNA ribossômicos fornecem informações mais adequadas em nível de gênero e espécie. rbcL é uma grande
subunidade do DNA circular do cloroplasto, responsável pela codificação
da enzima ribulase-bifosfato-carboxilase oxigenase, importantíssimos nas relações
de fixação do carbono durante a fotossíntese). Os dados obtidos com o
sequenciamento de nucleotídeos têm sido analisados através dos rigorosos
métodos cladísticos. Dentre as Angiospermas, duas linhagens principais na árvore de rbcL
correspondem, não aos tradicionais grupos de mono e dicotiledôneas, mas
aos grupos produtores de pólen uniaperturado versus produtores de pólen
triaperturados.
Hoje em dia o sistema de classificação utilizado
por pesquisadores e estudiosos em Botânica em boas partes das universidades brasileiras é o Sistema de APG (Angiosperm Phylogeny Group), um
sistema que revolucionou a classificação botânica ao propor a divisão das
Angiospermas em grupos diferentes dos tradicionais sugeridos em outros
sistemas de classificação. De acordo com este sistema as Angiospermas estão
divididas em quatro grandes grupos: Angiospermas basais, Magnoliídeas,
Monocotiledôneas e Eudicotiledôneas. O APG publicou seus trabalhos a
partir de 1993, tendo divulgado a classificação mais recente em 2009 (APG
III). A tendência hoje em dia com as análises filogenéticas é tentar resolver
alguns clados sem grande sustentabilidade em níveis hierárquicos mais inferiores uma vez que em níveis hierárquicos superiores o posicionamento
da maioria dos grupos já está sendo considerado estável.
Classificação por cladograma do reino Plantae
Sistema de Cronquist (1968, 1981, 1988): Esquema das supostas relações evolutivas
entre as subclasses de angiospermas.
Árvore filogenética (cladograma) mostrando as relações entre os taxa de Angiospermas.
Análise foi baseada em dados moleculares (sequências de regiões do DNA). Sistema de classificação
do APG II.
Referências:
Sistema de classificação
BARROSO, G. M.; GUIMARÃES, E. F.; ICHASO, C. L. F.; COSTA, C.G.; PEIXOTO A. L. Sistemática das angiospermas do Brasil. Viçosa: UFV, Imprensa Universitária, 2002 (v.1); 1991 (v.2); 1991 (v.3).
CRONQUIST, A. The evolucion and classification of flowering plants. 2ª ed. New York: The New York Botanical garden, 1988.