Para aqueles que são amantes da natureza...

"Este cerrado é um pouco como o nosso povo brasileiro. Frágil e forte. As árvores tortas, às vezes raquíticas, guardam fortalezas desconhecidas. Suas raízes vão procurar nas profundezas do solo a sua sobrevivência, resistindo ao fogo, à seca e ao próprio homem. E ainda, como nosso povo, encontra forças para seguir em frente apesar de tudo e até por causa de tudo"

Newton de Castro


Mostrando postagens com marcador Meio Ambiente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Meio Ambiente. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 25 de maio de 2021

A ideologia do desenvolvimento sustentável

Muito se fala em Desenvolvimento Sustentável (DS) como a solução definitiva para os problemas ambientais da atualidade. O principio de que se deve usar os recursos naturais com racionalidade no presente para não comprometer o uso pelas próximas gerações no futuro, foi introduzido vagarosamente nas empresas, na legislação, em acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário e nos documentos que norteiam a construção do currículo escolar.
Apesar do termo ganhar evidência a partir do final da década de 1960 com o Clube de Roma e as grandes conferências mundiais da década de 1970, a base do pensamento teve origem em Gifford Pinchot, que no século XIX, defendia o uso adequado e criterioso dos recursos naturais, de forma racional para a maioria dos cidadãos. Admitia a natureza como mercadoria, mas questionava a velocidade em que se dava a sua posse (DIEGUES, 1996).
Para Oliveira (2005), defender o uso racional dos recursos naturais é garantir o combustível para manutenção da máquina capitalista, que com técnicas e o trabalho humano são convertidos em riqueza e poder, e os problemas ambientais se resolvem através da ciência e tecnologia. É de caráter ideológico por manter a dominação de uma classe através da alienação.
Em 1968, cientistas, educadores, economistas e industriais se reuniram formando o Clube de Roma para discussões sobre geopolítica. O produto, foi o livro Limites do Crescimento, que alertava para o aumento populacional frente aos recursos naturais não-renováveis e propunha um planejamento mundial para a manutenção do capitalismo com um equilíbrio que fosse sustentável no futuro. Diante disto, em 1972, foi realizada a Primeira Conferência Mundial de Desenvolvimento e Meio Ambiente, em Estocolmo (Suécia) que teve por objetivo principal formar uma aliança internacional para estimular os governos a criarem políticas ambientais para conter poluição. Oliveira (2005) destaca que as discussões sobre o uso dos recursos naturais, tinham como pano de fundo, a manutenção da reprodução do capital e o interesse em controlar e obstruir o crescimento dos países subdesenvolvidos, estimulando-os a seguir as “recomendações” dos países hegemônicos.
A crise do petróleo em 1973, mostrou que não bastava manter recursos naturais para o capital, era preciso ter controle sobre eles (HARVEY, 1992). Sem preocupações com o meio ambiente, as décadas seguintes foram de expansão industrial em muitos países, evidenciando que a Conferência de Estocolmo não havia sensibilizado o mundo quanto aos problemas ambientais. Porém, a maior preocupação era o risco de esgotamento dos recursos naturais que poria fim ao capitalismo.
Assim, em 1983, a ONU cria uma Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, e quatro anos depois, o Relatório Brundtland (Nosso futuro comum) é publicado introduzindo o conceito de DS, ressaltando as preocupações com o crescimento populacional e o esgotamento dos recursos naturais. Sob a influência deste relatório acontece a Segunda Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, com a participação de 178 países.
O Brasil não foi uma escolha aleatória. País em desenvolvimento com economia que se alinhava ao neoliberalismo e um grande patrimônio natural e genético, além de uma biodiversidade ainda não explorada. Segundo Dias (1991), a Rio-92 foi o evento mais importante desde que o ser humano se organizou em sociedade, por reunir milhares de Organizações Não-Governamentais e participantes da sociedade civil para discutir as questões ambientais. Esse era o ambiente propício para a propagação e difusão de uma nova ideologia de desenvolvimento. Neste evento, foram aprovadas a Carta Brasileira para a Educação Ambiental, que recomendou a implantação da Educação Ambiental em todos os níveis de ensino e a Agenda 21.
A Agenda 21 estabeleceu metas para o DS, propôs ajuda financeira aos países em desenvolvimento, a conservação da diversidade biológica, o fortalecimento da base científica para o manejo sustentável e treinamento ao país interessado. Todos os segmentos foram impregnados pelas políticas de sustentabilidade (agricultura sustentável, dinâmica demográfica sustentável, padrões de consumo sustentável, sustentabilidade do produto, educação para a sustentabilidade entre outros). Os objetivos eram ajustar os problemas ambientais e regular os recursos naturais às necessidades do capital e manter o controle do desenvolvimento em países periféricos.
Em 2000, a ONU divulga o programa Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) contendo oito objetivos para a erradicação da pobreza a serem alcançados até 2015. Admitiu que os objetivos propostos na Rio-92 não foram alcançados, o que seria confirmado durante a Rio+10. Ao identificar o ambiente escolar como propício para a difusão de novas ideias, em 2004, a ONU lança a Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (DEDS) que continuaria a partir de 2015 com a Agenda 2030, implementada pelo documento Educação para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: objetivos de aprendizagem (UNESCO, 2017). Para Costa e Gonçalves (2017), a Agenda 2030 discute problemas complexos de uma maneira superficial, oculta a realidade e estimula a entrada da iniciativa privada na educação pública, usando como desculpa, uma política global que desconsidera as particularidades de cada nação.
Em 2017, após discussões e muitas críticas, a Base Nacional Comum Curricular- BNCC é aprovada em um alinhamento com a Agenda 2030. O documento foi esvaziado da Educação Ambiental (EA) e de qualquer crítica a respeito das desigualdades sociais e da degradação ambiental. Optou pela tendência internacional em fazer referência aos termos desenvolvimento sustentável e educação para a sustentabilidade, que carregam consigo intencionalidades em atender as necessidades do capitalismo e a degradação ambiental imposta por ele, sem muitas preocupações com EA, que tem por princípio básico, a formação humana com princípios éticos de respeito a qualquer forma de vida. Diante disto, é fica evidente a necessidade da valorizar a EA e a sua permanência como referência, na construção de políticas públicas e documentos que orientam o currículo escolar (SILVA; LOUREIRO, 2019; FRIZZO; CARVALHO, 2018).
Diante do exposto, o DS é uma ideologia que está sendo construída desde que se percebeu que o esgotamento dos recursos naturais compromete a continuidade do capitalismo e que a geração presente deve preservar a natureza, não para as gerações futuras, mas como combustível para o capital em qualquer tempo.

Referências

COSTA, G. C; GONÇALVES, P. M. Omissões do Gargamel: os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU e os Smurfs. Atas: IX Encontro Pesquisa em Educação Ambiental. Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora – MG, 13-16 de agosto de 2017.
DIAS, G.F. Educação Ambiental: Princípios e Práticas. São Paulo: Gaia, 1991.
DIEGUES, A. C. O mito moderno da natureza intocada. São Paulo: HUCITEC, 1996.
FRIZZO, T. C. E.; CARVALHO, I. C.de M. Políticas públicas atuais no Brasil: o silêncio da educação ambiental. Rev. Eletrônica Mestr. Educ. Ambient. Rio Grande. Ed. Especial EDEA, n. 1, p. 115-127, 2018.
HARVEY, D. A Condição Pós-Moderna. São Paulo: Loyola, 1992.
OLIVEIRA, L. D. de. A Ideologia do Desenvolvimento Sustentável: Notas para Reflexão. Revista Tamoios, Rio de Janeiro, UERJ-FFP, v. I, n. 2, p. 33-38, 2005.
SILVA, S. DO N.; LOUREIRO, C. F. B. O sequestro da Educação Ambiental na BNCC (Educação Infantil - Ensino Fundamental): os temas Sustentabilidade/Sustentável a partir da Agenda 2030. XII ENPEC. UFRN, Natal, RN. 2019.
UNESCO. Educação para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: objetivos de aprendizagem. 2017.

Vídeo:
Palestra: A ideologia do desenvolvimento sustentável - a partir de 01:30:00.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Precisamos conversar sobre a pandemia sob o prisma do que vem acontecendo com o meio ambiente...

São muitas as transformações ocorridas no meio ambiente nas última décadas influenciadas principalmente pelas atividades econômicas e o poder do capital. A humanidade tem ignorado, há quase quatro décadas, o anúncio das mudanças climáticas em decorrência do uso de combustíveis fósseis e emissão de gás carbônico de outras fontes, como a atividade industrial sem nenhum controle. Ainda, conta com a contribuição das queimadas criminosas, que nos últimos tempos tem consumido fauna e flora no Brasil. Aumento de temperatura global do planeta, aumento do nível do mar em função do descongelamento de geleiras e a destruição da biodiversidade são consequências diretas da mudança climática. E o que isso tudo tem a ver com a pandemia de 2020 que se estenderá por um tempo que ninguém pode prever? Tudo! Vírus e outros seres que podem vir a causar perturbações e doenças são encontrados na biodiversidade. Vivem harmonicamente em seus reservatórios biológicos há milhões ou bilhões de anos em relações estáveis. A modificação da paisagem, ocupação de áreas de florestas, queimadas e desmatamentos provocam a destruição do habitat natural desses indivíduos, perturbando a dinâmica ecossistêmica. Convívio próximo com a espécie humana reflete mudanças de comportamentos e adaptações necessárias a sobrevivência serão estabelecidas, e aí tudo pode acontecer... não se pode esquecer que os vírus em especial, são naturalmente mutantes e parasitos obrigatórios por não possuírem a maquinaria bioquímica para produzir as substâncias necessárias a manutenção da sua vida. Ele usa uma maquinaria emprestada do ser que ele parasita: bactérias, células animais e células vegetais. É claro que essa problemática não está relaciona apenas aos vírus, mas a uma série de indivíduos que mudam de comportamento quando são desalojados pelo "progresso" e passam a se comportar como vetores de doenças, fazendo ponte entre o reservatório de vírus, protistas entre outros para a espécie humana. De modo ilustrativo, pode-se citar uma série de doenças denominadas de tropicais e que são negligenciadas pelo nosso sistema de saúde pela inexistência de políticas públicas. Entre elas, doença de chagas, malária, leishmaniose, febre amarela. O que se pode concluir? O ritmo de destruição das florestas e dos habitats naturais poderão produzir doenças que dependendo das condições de contágio e virulência do indivíduo desalojado, novas epidemias, endemias ou pandemias poderão surgir mais frequentemente. E não é somente isso! A velocidade em que tem acontecido a perda da biodiversidade e os reflexos da mudança climática, compromete a prestação de serviços ecossistêmicos, que são aquele em que não se paga, pois é prestado pela própria natureza quando se tem o equilíbrio, como polinização, ciclagem de nutrientes, produção de água e a manutenção do regime hidrológico para a produção de chuvas, e até mesmo, o ecoturismo e lazer para as comunidades. Será possível atividade de agropecuária sem os serviços ecossistêmicos? É apenas uma retórica provocativa para a reflexão...

Para quem desejar aprofundar nessa relação entre meio ambiente e pandemias, recomendo a leitura do artigo do link abaixo.


 Pandemia, biodiversidade, mudanças globais e bem-estar humano



sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Conheça a festa da semente em Mineiros, Goiás.


Não apenas sementes. 

Quem visitar Mineiros (GO), no mês de setembro, poderá conferir o trabalho que é realizado em prol da preservação da biodiversidade, uma ação iniciada em 2009 e que já começa a ganhar ares de festa tradicional já na sua sétima edição nesse ano de 2015. 

Aos interessados, a comissão organizadora realiza, ainda, o Encontro de Criadores de Suínos Caipira.

Dentre os objetivos estão a promoção do resgate de espécies crioulas e raças caipiras (agrobiodiversidade), além de proporcionar o intercâmbio entre produtores que possuam sementes crioulas e raças caipiras. 

Também discuti a importância da agricultura familiar e oferece aos participantes grade de capacitação, inclusive na produção e processamento de alimentos.

A festa enseja resgatar espécies crioulas que fizeram parte do hábito alimentar das comunidades e que, ao longo dos anos, com os efeitos da globalização foram se perdendo. Entre as espécies estão o mangarito, o ora-pró-nobis e a araruta, importantes na alimentação das comunidades rurais.

A primeira edição da festa ocorreu em setembro de 2009, ocasião em que agricultores levaram como ingresso sementes e mudas de espécies crioulas, sendo posteriormente trocadas entre eles. Já na primeira edição, palestras, depoimentos e troca de experiências, além de degustação de alimentos feitos com as espécies. 

A coordenação-geral fica por conta da Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (Emater), UNIFIMES e conta com o apoio da prefeitura local e demais entidades. 


Informações : 
Núcleo de estudo e pesquisa em agroecologia
http://www.fimes.edu.br/








terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Aprendendo com formigas e cupins


Por: Washington Novaes

Publicado em: 28/09/2012 

Jornal O Estado de São Paulo
Texto da BBC Brasil estampado na última segunda-feira por este jornal relata a preocupação de cientistas com a “invasão global de minhocas” e de “outras espécies alienígenas” – entre elas as formigas -, que “já conquistaram quase todos os continentes” (a Antártida é uma das exceções). Espécies invasoras estão “vencendo a competição” com espécies locais porque se adaptam rapidamente a terrenos desmatados e alterados, mudam a estrutura dos solos. Podem reduzir efeitos da erosão, como na Amazônia, aumentar o nível de minerais no solo e estimular o crescimento de plantas. Mas afastam outras espécies.
Estranho que possa parecer, é tema altamente relevante, fascinante mesmo, por muitos ângulos. E quem se interessar pode, por exemplo, consultar o livro Journey to the ants – a story of scientif exploration” (Harvard Press University, 1994), de Bert Hordobler e Edward Wilson, este último considerado um dos maiores conhecedores da biodiversidade e o maior especialista em mirmecologia, o estudo das formigas, ao qual se dedica há meio século no mundo todo, com vários livros publicados. A ponto de um deles (The Ants, 1990), pesar 3,4 quilos.Juntos, Wilson e Hordobler têm pesquisas de quase um século.
Wilson e Hordobler começam ensinando aos humanos uma lição admirável das formigas : seu êxito – que as levará a dominar o planeta, de acordo com o primeiro – decorre do extraordinário comportamento de cooperação entre os milhares de membros de cada colônia, que gera extrema eficiência , na busca, transporte e armazenamento de alimentos, na reprodução, na defesa do grupo etc. Uma das armas principais nessa luta coletiva pela vida é o uso de vários tipos de linguagem (corporal, visual, gestual etc.), principalmente química – porque o odor de cada parte do corpo, emitido no encontro de dois seres, pode ter significados muito específicos, como alarme, desejo de atração, disposição para cuidar da cria, oferta de alimentos etc. E essa cooperação é a base da sobrevivência.
A colônia é o sentido fundamental da vida para cada formiga, embora possa haver disputa entre a rainha e formigas operárias, quando estas se sentem em condições de reproduzir (o que cabe à rainha). Pode haver também conflitos com outras formigas da mesma espécie. Mas, com suas características, as formigas sobrevivem há muito mais tempo que os seres humanos, uns 100 milhões de anos, desde a época dos dinossauros. É quase inacreditável, quando se lembra que o tamanho de uma formiga é de cerca de um milionésimo do corpo humano. Mas elas representam um por cento do quintilhão de insetos que existem no planeta – já eram na década de 90 cerca de 10 quatrilhões e cada formiga se reproduz umas 500 vezes nos 20 anos que o ser humano leva para formar cada nova geração. Por isso, pensa Wilson, as formigas dominarão a Terra. Hoje, juntas, pesam tanto quanto todos os seres humanos.
Já há estudos demonstrando que na floresta amazônica, perto de Manaus, formigas e térmites representam um terço da biomassa animal. Se a elas se acrescentarem abelhas e vespas, serão 80% do total. Por isso, dizem Wilson e seu parceiro, pode-se afirmar que “o socialismo funciona, em certas circunstâncias. Karl Marx apenas escolheu a espécie errada” para estudar. Embora, no caso das formigas, suas 500 mil células nervosas tenham, juntas, apenas o tamanho de uma letra numa página de livro. E se todas as espécies de formigas desaparecessem – afirmam – “seria uma catástrofe”
Poderíamos aprender muito com formigas, cupins e muitas outras espécies vegetais. Há alguns anos, quando produzia um documentário para a TV Cultura, o autor destas linhas foi ao Jardim Botânico paulistano acompanhando um especialista em grandes estruturas de concreto na USP, que começou mostrando uma variedade de bambu com a maior capacidade de resistência a impactos físicos por centímetro quadrado – e o estudo dos fundamentos dessa resistência serviam para orientar a criação de grandes estruturas de concreto. Depois, mostrou um cupinzeiro, abrindo com as palavras: “Este é o edifício mais inteligente que existe. Aqui vivem dezenas de milhares de indivíduos, que convivem em harmonia, trafegam sem congestionamento (para buscar alimentos), sem colisões, sem conflitos, orientando-se com várias linguagens. No interior do cupinzeiro, existem câmeras específicas onde a rainha deposita seus ovos para reprodução; câmeras para depósito de alimentos, com orifícios no alto para a saída de gases da decomposição; outros orifícios que são fechados ou abertos por ação dos cupins, para adaptar-se às temperaturas fria ou quente. Pode haver algo mais racional ?”
No momento em que tantos estudos mostram o momento difícil que vivemos por causa das várias crises globais, inclusive a da finitude de recursos naturais, é preciso entender muito mais da relação humana não apenas com os ecossistemas, biomas, áreas específicas, mas também do significado, em cada um deles, das muitas espécies, sua importância para a conservação – e para a sobrevivência humana. É espantoso que, na hora em que cientistas afirmam que toda a superfície de gelo acumulada no Ártico pode derreter-se (nos meses de verão) em quatro anos (guardian.co.uk, 17/9), liberando quantidades assombrosas de metano acumuladas sob a camada até aqui permanente, é preciso ter consciência da gravidade. E da necessidade de levar os comportamentos sociais a serem adequados às novas questões. Até formigas, cupins, abelhas e vespas enquadram-se nesse contexto.
É aflitivo, por isso, verificar a distância dos temas fundamentais em que se encontram, nesta hora, os temas das campanhas eleitorais em todo o país. Não será por essas veredas imediatistas que se poderá chegar a alguma via larga, aberta para o horizonte e o futuro.

domingo, 16 de setembro de 2012

Depósito de rejeitos do césio-137 em Abadia de Goiás foi alvo de polêmica


Moradores da cidade sofreram com o preconceito e tentaram impedir ação.


Local tornou-se o único depósito de lixo radioativo definitivo do Brasil.


Durante o acidente radiológico com o césio-137 em Goiânia, em setembro de 1987, uma das grandes preocupações do governo foi se desfazer da substância radioativa e dos materiais que tiveram contato com ela. No dia 13 daquele mês, catadores de lixo abriram uma máquina de radioterapia abandonada e retiraram de lá uma pedra brilhante, que era do material radioativo. A pedra atiçou a curiosidade de várias pessoas quatro morreram na época e muitas outras sofreram com os efeitos da radioatividade. Roupas, sapatos e outros objetos pessoais dele criaram os chamados "rejeitos" -- lixo tóxico que se tornou um problema de saúde. A solução, após a análise de oito locais em todo o Brasil, foi criar um depósito em Abadia de Goiás, na Região Metropolitana de Goiânia, que apesar da revolta da população local na época -- acabou se tornando o único depósito de lixo radioativo definitivo do Brasil.

Entrada do depósito onde estão armazenadas as 40 mil toneladas de rejeitos do acidente com césio-1367, em Goiânia, Goiás (Foto: Adriano Zago/G1)
Entrada do depósito onde estão armazenados os rejeitos do césio-137 (Foto: Adriano Zago/G1)
Para isso, foi necessário levar para a cidade uma unidade da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). Porém, essa iniciativa causou polêmica. “Foi uma loucura porque na época não sabíamos o que era césio-137, nós não tínhamos conhecimento. Víamos o que estava acontecendo em Goiânia e o governo queria trazer aquele negócio para nós. Ficamos malucos”, lembra o comerciante Sebastião Mendonça, de 43 anos, um dos participantes das manifestações contra a ida dos rejeitos para a cidade.
No dia 28 de setembro de 1987, a Cnen, que tem sede no Rio de Janeiro, foi acionada pelas autoridades. O grupo de emergência da comissão era treinado para atender acidentes em reatores nucleares. Uma cápsula de césio-137 aberta em uma capital brasileira era novidade. “Ninguém imaginava que seria uma fonte de césio. Tanto que, logo que fomos comunicados pelo primeiro grupo que foi a Goiânia, achamos que tinham medido errado. Pensamos: ‘não pode ser isso’. E quando chegamos a Goiás, vimos que realmente era um acidente maior do que se esperava”, recorda Cesar Luiz Vieria Ney, mestre em energia nuclear e atual supervisor de radioproteção da Cnen em Goiás. Carioca, ele chegou a Goiânia no dia 29 de setembro.
Aparelhos que detectam material radioativo, usados na época do acidente com o césio-137, em Goiânia, Goiás (Foto: Reprodução)Aparelhos que detectam material radioativo, usados na época do acidente (Foto: Adriano Zago/G1)









A princípio, apenas o grupo de emergência havia sido deslocado, mas, por causa da grande repercussão e gravidade do acidente, o trabalho ganhou reforço. Até mesmo o pessoal do administrativo da comissão foi convocado a atuar no caso. Ao todo, 700 pessoas da Cnen atuaram no acidente do césio-137.
Mesmo com a grande quantidade de pessoas trabalhando, o serviço era difícil, pois as pessoas tinham medo da contaminação. O Exército Brasileiro também desembarcou em Goiás. “Tinha o problema de segurança, de pôr a faixa e não deixar ninguém entrar [nos locais contaminados]. O policial tinha medo. A pessoa ultrapassava e ele não ia atrás por medo”, conta Cesar Luiz.
Segurança

Com o controle do acidente e a descontaminação das áreas atingidas um total de sete locais em Goiânia, gerou-se uma grande quantidade de rejeitos. A quantidade de rejeitos oriundos dos 19 gramas de césio concentrado chegou a 40 mil toneladas.
Depósito provisório do césio-137, em Abadia de Goiás (Foto: Reprodução)Depósito provisório do césio-137, em Abadia de Goiás (Foto: Divulgação/Cnen)









Na época, o controle foi feito a partir da retirada dos materiais das áreas que estavam contaminadas. Tudo foi embalado. Para armazenar os rejeitos, foram usados tambores metálicos de 200 litros, caixas de um metro quadrado (mil litros) e até um contêiner marítimo, devido à grande quantidade de material. Os recipientes passaram por testes físicos e de resistência para garantir a segurança.
Inicialmente, os rejeitos foram estocados de forma provisória no mesmo lugar onde hoje funciona a unidade da Cnen em Abadia de Goiás, porém, de forma provisória. Controlado o acidente, um projeto feito a longo prazo definiu o local onde os rejeitos seriam definitivamente guardados.
Cesar Luiza, supervisor de radioproteção, e Leonardo Lage, coordenador do Cnen, em Abadia de Goiás (Foto: Adriano Zago/G1)Cesar Luiz e Leonardo Lage, do Cnen em Goiás
(Foto: Adriano Zago/G1)
Para escolher Abadia de Goiás, os pesquisadores da Cnen realizaram uma série de testes para saber se a área era propícia a receber o depósito dos rejeitos do césio-137. Foi criado, então, um laboratório de radioecologia. O lençol freático da região foi um dos principais objetos de estudo. A equipe constatou que o solo não obtinha águas subterrâneas que abasteciam o município. As pesquisas também comprovaram que, se ali depositado, o césio não vazaria.
Revolta da população

"O povo quis ir embora. Ninguém queria ficar morando aqui. Diziam que todos iam adoecer. Todo mundo tinha medo”, conta a aposentada Francisca Pereira Cardoso Cruz, de 79 anos, que viveu de perto o drama dos moradores de Abadia.
“Invadimos a BR-060 [rodovia que liga Goiânia a Abadia] e tentamos bloquear a vinda do césio. Foi um presente de grego que recebemos naquela época. As manifestações duraram uns três dias ou mais. Passamos a noite às margens da BR, em vigília. Mas fomos surpreendidos porque para cada morador tinha o dobro de policial e eles ficavam na porta das casas para nos vigiar. Lutei muito para o césio não vir para a Abadia”, lembra Sebastião Mendonça.
Depois de todos os estudos realizados e do local definitivo do armazenamento decidido, o material foi distribuído em dois depósitos próximos um do outro. Tudo foi reembalado, para garantir que o material radioativo não vazasse, e colocado dentro de uma espécie de piscina de concreto impermeabilizada. Por cima, foram colocadas terra e grama. Ao todo, segundo Cesar Luiz, o que sobrou das 19 gramas de césio e os materiais contaminados estão protegidos por oito barreiras que impedem o césio de entrar em contato com o meio ambiente.
“A população, inicialmente, não quis. Virou carro na estrada, não queria deixar o material entrar. Teve uma vez, quando já estava tudo estocado aqui de forma provisória, que os manifestantes quiseram invadir e o oficial que estava de trabalho no dia teve uma boa ideia e falou que todos podiam entrar e que cada um podia pegar um tambor e ir embora. Mas, claro, ninguém teve coragem”, recorda Cesar Luiz.
Manutenção

O depósito definitivo foi construído em 1997, mesmo ano em que foi inaugurado o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO), unidade da Cnen em Goiás. O local fica dentro do Parque Estadual Telma Ortegal, que tem 1,6 milhão de m². A estrutura que abriga os rejeitos foi projetada para resistir 300 anos intacta e preparada desastres como tremor de terra e queda de avião. O depósito do césio-137 tornou-se, então, o único depósito de lixo radioativo definitivo do Brasil.
Sebastião Mendonça é comerciante e foi um dos manifestantes que não queriam a ida do cédio-137 para Abadia de Goiás (Foto: Adriano Zago/G1)Sebastião Mendonça é comerciante de Abadia
(Foto: Adriano Zago/G1)
A Cnen disponibiliza à unidade do Centro-Oeste uma verba para a manutenção do solo. “Conservamos principalmente a parte dos morros com grama. Temos um sistema com bomba d’água na beira de um rio que leva a água até esses morros, para que fiquem sempre regados. Inclusive, quando ocorrem queimadas no parque nós ligamos a bomba e a única coisa que fica verde são os morros. O pessoal até diz que é o efeito césio, mas não. Nós usamos a água para manter aquela área intacta. Se der erosão no solo, pode expor uma parte do concreto. Mas isso é algo difícil de acontecer”, explica o supervisor de radioproteção, Cesar Luiz.
As sete principais áreas que foram expostas à contaminação em Goiânia ainda hoje são monitoradas. “Na época do acidente, tudo que estava nesses locais foi removido até se chegar a um nível de radiação que não oferecesse risco à população. Depois do final de dezembro de 1987, todas elas foram avaliadas e estavam livres para utilização. Algumas não estão sendo utilizadas talvez por medo, mas já estão liberadas”, explica Cesar Luiz.
Mesmo sabendo que já não há mais risco de contaminação, os técnicos da Cnen em Goiás continuam monitorando as áreas duas vezes ao ano. O objetivo, segundo o especialista, “é mostrar para a população que realmente não existe mais risco”.
Cesar Luiz Vieira é supervisor de radioproteção do Cnen e trabalhou no acidente do césio-137, em Goiânia, Goiás (Foto: Reprodução)Cesar Luiz Vieira trabalhou no acidente do césio-137, em 1987 (Foto: Divulgação/Cnen)









Três dias depois de chegar à capital goiana, o mestre em energia nuclear Cesar Luiz recebeu a missão de transferir as pessoas contaminadas para a unidade de saúde, que atualmente é o Hospital Geral de Goiânia (HGG). Algumas delas já sofriam com os graves efeitos da radiação. “O impacto social é muito grande. Tinha a discriminação do goianiense com o pessoal que morava na Rua 57 [um dos locais contaminados]. O goiano quando saía do estado era maltratado, o brasileiro saía do país e também era malvisto. São coisas que acontecem quando há um acidente desse tamanho. O medo das pessoas era muito grande. Tive colegas do Rio de Janeiro que vieram trabalhar no acidente e os parentes deles pararam de fazer visita depois”, retrata.
Para ele, o acidente foi um verdadeiro desastre. “Na época, eu já estava trabalhando na Cnen há 14 anos na parte de ciclo de combustível e na medida de minério. Então, já conhecia alguma coisa do assunto, mas a dificuldade foi muito grande porque extrapolou a radiação, pois teve um impacto de cidade social”, analisa.
Discriminação

A auxiliar de serviços gerais Divina Paula Silva de Souza tem 50 anos e é natural de Abadia de Goiás. Ao se casar, ela saiu da cidade e voltou há exatos 20 anos, quando estava grávida de seu segundo filho. Divina Paula, assim como os demais abadienses e goianos, foi vítima do preconceito causado pelo acidente.
Divina Paula é funcionária do Cnen, mora em Abadia de Goiás e sofreu com o preconceito por causa do acidente com o césio-137, em Goiânia, Goiás (Foto: Adriano Zago/G1)Divina Paula é funcionária do Cnen, em Abadia
(Foto: Adriano Zago/G1)
Para notar a diferença no tratamento, não era preciso ir muito longe, bastava ir até a capital. “Quando o césio veio para cá, meus filhos eram pequenos. Eu ia levá-los ao médico, em Goiânia, e, ao falar que morava em Abadia, as atendentes se afastavam de mim. Éramos muito discriminados. Na época, eu estava grávida do meu caçula e o pessoal dizia que ele iria nascer com problema, imperfeito. Mas ele nasceu perfeito e saudável”, comemora Divina.
Para o comerciante Sebastião Mendonça, Abadia de Goiás, que antes era um distrito de Goiânia, foi municipalizada em razão do acidente com o césio-137. “Penso que a cidade foi municipalizada para que não houvesse essa ideia de que o césio ficou em Goiânia”, supõe.
O coordenador do Cnen no Centro-Oeste, Leonardo Bastos Lage, é de Anápolis, cidade a 55 km de Goiânia, e lembra que na época do acidente estava na capital para um evento internacional de motovelocidade. "Senti de perto todo esse preconceito e dificuldade que nós goianos tivemos para superar as questões causadas pelo acidente. Tanto no trabalho em Brasília, pois eu já era funcionário federal, com os veículos com placa de Anápolis ou de Goiânia, como nas nossas viagens de turismo, de lazer. Tínhamos uma rejeição bastante significativa”, relembra.
Com o tempo, os cidadãos de Abadia se acostumaram com o césio-137 e aproveitaram dos benefícios levados para a cidade oriundos da instalação da unidade da Cnen na região. “Muita gente achava que a cidade não ia crescer. O jeito foi lidar com a realidade e conhecer o césio-137, buscar conhecimento, entender o que estava acontecendo. Houve uma preocupação muito grande enquanto não aconteceu o depósito definitivo do material. Hoje é tranquilo, outra realidade. Mas, na época, ficamos na insegurança total”, afirma Sebastião Mendonça. Ele conta também que a ida do césio para Abadia divulgou a cidade e que hoje não vê mais ninguém dizendo que tem medo. “Hoje há segurança total”.
Servidores do Cnen vestiram macacões com a frase "Eu amo Goiânia" no final do acidente com o césio-137, em Goiânia, Goiás (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)Servidores do Cnen vestiram macacões com a frase "Eu amo Goiânia" (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)










Divina Paula, que trabalha na Cnen do Centro-Oeste há 12 anos, afirma que, mesmo com toda a tragédia e impasse vividos pela população, hoje a vida segue tranquilamente. “Todos os profissionais da Cnen esclarecem bem as coisas para nós. Até as pessoas de fora nos veem diferente, eles viram não tem mais todo aquele perigo”.
G1 publica esta semana uma série de reportagens sobre os 25 anos do acidente do césio-137.

Radioacidentados dizem que faltam remédios para vítimas do césio-137



'Em vez de heróis, somos excluídos', afirma policial que trabalhou no acidente.
Trabalhadores da época da tragédia ainda pleiteiam atendimento e pensão.



Após 25 anos do acidente radiológico com o césio-137 em Goiânia, vítimas da tragédia reclamam do atendimento e da dificuldade para encontrar medicamentos no Centro de Atendimento aos Radioacidentados (Cara), unidade de assistência à saúde do governo estadual, criada para acompanhar exclusivamente esse grupo, que atualmente é composto por 1.016 pacientes. 
Policial militar da reserva, Marques de Souza Rodrigues, 48 anos, que tem um tumor no cérebro diagnosticado desde 1995 e toma seis tipos de medicamentos por dia, afirma que há mais de um ano encontra dificuldade para obter parte da sua medicação. “A situação parece ter piorado nos últimos meses. Então, resolvi comprar o remédio por conta própria e gastei R$ 140 com apenas um deles”.
Marques conta que, além do mal-estar físico, também se sente mal com a forma como é tratado. “Trabalhei no isolamento do local do acidente e, em vez de sermos heróis, somos excluídos. Sempre encontramos dificuldade para conseguir tratamento e remédios. As pessoas se esqueceram de nós”.
O presidente da Associação das Vítimas do Césio (AVCésio), Odesson Alves Ferreira, que é membro da família diretamente envolvida com a abertura da cápsula de césio-137, afirmou ao G1 que há um ano e meio não vai ao Cara. “Eu deixei de receber o medicamento. Não tem como um paciente ir ao Centro de Assistência aos Radioacidentados simplesmente para dizer que está doente. Aquilo ali nos interessa a partir do momento que nos dá assistência integral, conforme foi proposto por lei”.
Diretor-geral do Centro de Atendimento aos Radioacidentados, André Luiz Souza confirmou aoG1 que existe uma dificuldade para adquirir medicamentos. Disse também que a situação é mais sensível em relação às vítimas do césio-137. Ele explicou que para este tipo de paciente a troca de medicamentos é constante devido ao avanço da idade das vítimas mais antigas.
Policial militar da reserva Marques de Souza Rodrigues, vítima do césio-137, mostra uniforme da formatura em Goiás (Foto: Versanna Carvalho/G1)
Policial militar da reserva Marques de Souza Rodrigues, vítima do césio-137 (Foto: Versanna Carvalho/G1)
“Temos adquirido remédios de farmácia básica e ambulatório e encontrado dificuldade para encontrar fornecedores para os medicamentos mais específicos, cerca de 35 a 40, voltados para problemas cardíacos, de próstata e outros”, afirma.
Para ele, a extinção do fundo rotativo, que permitia cobrir despesas menores com pagamento imediato, complicou ainda mais a aquisição de medicamentos. Segundo o diretor-geral, o fundo foi extinto por recomendação do Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) e do Tribunal de Contas do Estado de Goiás (TCE), que entendem que recursos para compras emergenciais não podem ser usados para adquir medicamentos de uso contínuo.
O diretor-geral do Cara acredita que a solução definitiva para o problema seja a aprovação do Fundo Estadual de Saúde, que possibilitará à Secretaria Estadual de Saúde (SES) fazer compras com mais agilidade. Enquanto isso não acontece, a unidade conseguiu firmar uma parceria com a Organização das Voluntárias de Goiás (OVG). “A partir desta semana vamos disponibilizar todos os medicamentos em falta”, garante.
Assistência
Sobre as críticas em torno do atendimento aos pacientes do Cara, André Luiz ressalta que a assistência vai além do fornecimento de remédios. Há também assistente social, médicos, odontólogos e psicólogos exclusivos. Atualmente, o centro atende 1.016 pacientes, que foram classificados em grupos 1, 2 e 3 para fins de atendimento médico.
O grupo 1 é formado por pessoas que foram contaminadas (que tiveram radiolesão externa, cutânea) e irradiadas (que foram submetidas a altas doses de radiação). Nessa categoria, estão 164 pessoas divididas em vítimas do acidente (50), seus filhos (35) e neto (1). O grupo 2, indivíduos que foram contaminados e irradiados em um nível abaixo do observado no grupo 1, tem 44 vítimas e 34 filhos.
Já o grupo 3 é o mais numeroso, com 851 pacientes. Ele é composto por pessoas que tiveram envolvimento com o acidente radiológico, mas em que não ficou comprovada contaminação nem irradiação. Estão nessa categoria os trabalhadores que atuaram nos locais que eram focos de contaminação, na fase de controle do acidente radiológico, fazendo o isolamento das casas e descontaminação de áreas e pessoas. Fazem parte desse grupo policiais militares, bombeiros e trabalhadores de órgãos públicos como antigo Consórcio Rodoviário Interestadual (Crisa) e a Companhia de Urbanização (Comurg).
“O direito do grupo 3 foi conquistado em 2002, quando se tornaram vítimas indiretas. Desde então, é feito todo um acompanhamento desses radioacidentados. Mas a lei que incluiu o grupo 3 não deu a eles os mesmos benefícios concedidos aos grupos 1 e 2. Nossas limitações são impostas pela própria lei”, pontua André Souza.
Os estudos e pesquisas sobre o acidente com o césio-137 e as vítimas ficam a cargo do Centro de Excelência em Ensino, Pesquisas e Projetos Leide das Neves Ferreira (Ceepp-LNF), criado em 2011, e diretamente ligado ao gabinete do secretário Estadual de Saúde. O órgão, que antes fazia parte da extinta Superintendência Leide das Neves, recebe demandas de pesquisadores nacionais e internacionais interessados em conhecer o trabalho realizado emGoiânia e em traçar paralelos com eventos de contaminação por radiação ocorridos em outros países.
Promotor de Justiça Marcus Antônio Ferreira Alves, do Ministério Público de Goiás (Foto: Reprodução / TV Anhanguera)Promotor Marcus Antônio Ferreira Alves, do MP-GO
(Foto: Reprodução / TV Anhanguera)
Pensão
A inclusão de novas vítimas do grupo 3 no programa de atendimento aos radioacidentados também pode ajudar no processo de solicitação de pensão. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, em 2010, haviam 181 pessoas cadastradas como beneficiárias de pensão da União e 480 que recebem pensão do estado de Goiás. Algumas dessas pessoas recebem as duas pensões.
Os argumentos desse grupo foram fortalecidos pela publicação de uma nota técnica do Ministério da Saúde sobre o césio-137, em 2001. Segundo o documento, a incidência de casos câncer é de 5,4 vezes a 3,3 vezes maior, respectivamente, nos homens e mulheres diretamente expostos ao acidente do que na população masculina e feminina de Goiânia.
Em maio 2002, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), firmado entre o Ministério Público e o governo do estado, criou parâmetros para o reconhecimento das vítimas no grupo 3 como radioacidentadas. A partir dele, o estado enviou um projeto de lei para a Assembleia Legislativa de Goiás, que foi aprovado e se tornou a lei estadual 12.226/2002.
O promotor de Justiça Marcus Antônio Ferreira Alves comenta que o TAC possibilitou a inclusão de 900 a mil pessoas como vítimas do césio-137. “Não é possível determinar quantas pessoas efetivamente conseguiram esse reconhecimento, que pode ser feito a qualquer tempo por qualquer pessoa que tenha trabalhado no estado e tenha uma doença crônica. Para isso, deve apresentar documentos, fotos e testemunhas que confirmem isso”, explica. Quem não consegue esse reconhecimento pode ainda recorrer à Justiça.
Kardec Sebastião dos Santos, vítima de contaminação por césio-137 em Goiás (Foto: Reprodução / TV Anhanguera)Kardec dos Santos se preocupa com as doenças que pode vir a ter (Foto: Reprodução / TV Anhanguera)









Doenças
A maior dificuldade das vítimas do acidente radiológico é justamente obter a confirmação de que a enfermidade adquirida por eles é uma consequência do césio-137. O histórico de doenças é extenso, mas, normalmente, apenas alguns tipos de câncer são aceitos. O aposentado Kardec Sebastião dos Santos, que ajudou a desmontar o equipamento de radioterapia, em setembro de 1987, se preocupa com o que está por vir. “Minha preocupação é essa, a medula. A doutora falou que, por causa do césio, não aumenta a plaqueta [quantidade de células sanguíneas que transportam oxigênio e nutrientes para o corpo]. Uma pessoa normal tem a partir de 150 mil [por milímetro cúbico de sangue]. A minha não passa de 103 mil”, comenta.
A vice-presidente da Associação das Vítimas do Césio (AVCésio), Sueli Lina de Morais Silva, afirma ter vários problemas de saúde. “Tenho todos. Pressão alta, gastrite, hérnia, várias complicações”, enumera.
Na opinião de Sueli, as vítimas que tiveram contato direto com o césio-137 e permaneceram por mais tempo nos locais atingidos apresentam mais problemas de saúde. “Eu tenho uma vizinha que também tem. Tem jovens hoje com pressão alta no nosso grupo. A gente pede explicação e não é normal. Há ainda a nossa constante preocupação com o câncer”, relata.
De acordo com o diretor-técnico do Cara, José Ferreira, após 25 anos da contaminação, é necessário continuar acompanhando e fazendo exames nas vítimas. “Agora podem começar a surgir tumores malignos no pulmão, gástrico e de colo [colorretal]. A gente precisa fazer exames e acompanhar, mas é importante dizer, que ao diagnosticar um câncer, a ciência não sabe responder se ele foi causado ou não pelo césio-137”, pondera(assista ao lado à entrevista na íntegra).
Para o promotor de Justiça Marcus Antônio Ferreira Alves, a falta de resposta científica e o medo também geram problemas psicológicos nos radioacidentados. “Agora estamos na fase da ciência, o que engloba pesquisa biogenética, acompanhamento e os medicamentos”, ressalta o promotor. Ele defende que sejam feitas mais pesquisas sobre a história do acidente com o césio-137.
Odesson Ferreira é irmão de Devair, o dono do ferro-velho onde a cápsula de césio foi aberta em Goiás (Foto: Versanna Carvalho/G1)Odesson Ferreira busca respostas para as doenças dos radioacidentados (Foto: Versanna Carvalho/G1)









Já o presidente da Associação das Vítima do Césio (AVCésio) diz que gostaria que a ciência fosse capaz contradizer a realidade que ele vê no dia a dia. “Eu gostaria que, através de pesquisas, documentos e estudos sérios, alguém pudesse dizer para mim que estou errado quando digo que as pessoas estão tendo hipertensão por causa do acidente; quando digo que as mulheres estão tendo osteoporose a partir dos 22 anos; que a gastrite que aparece em 100% das vítimas do césio não fosse verdade. Até para a gente poder dormir mais tranquilo em relação aos nossos netos”, desabafa.
G1 publica esta semana uma série de reportagens sobre os 25 anos do acidente do césio-137.

Assista e entenda: