Para aqueles que são amantes da natureza...

"Este cerrado é um pouco como o nosso povo brasileiro. Frágil e forte. As árvores tortas, às vezes raquíticas, guardam fortalezas desconhecidas. Suas raízes vão procurar nas profundezas do solo a sua sobrevivência, resistindo ao fogo, à seca e ao próprio homem. E ainda, como nosso povo, encontra forças para seguir em frente apesar de tudo e até por causa de tudo"

Newton de Castro


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terça-feira, 4 de maio de 2021

Escolas de classificação

Desde os primórdios da ciência o homem aprendeu a classificar com o intuito de compreender o mundo que nos cerca. Isto tem uma utilidade prática. Precisamos descobrir quais plantas eram comestíveis, venenosas, forrageiras etc. 

Classificar é uma ação inerente ao comportamento humano e tem sentido básico de organizar. Ao longo da história, surgiram numerosos sistemas de classificação, os quais costumam ser agrupados em quatro categorias: hábito, artificiais, naturais e filogenéticos.

Baseadas no hábito (árvores, ervas, trepadeiras). Os primeiros foram, evidentemente, os menos elaborados, embora seus autores acreditassem que eles refletiam afinidades naturais. Nestes sistemas, árvores, ervas, trepadeiras, etc., consistiam os grupos principais de plantas. Teophrastus (370-285 a.C.) é o nome mais célebre deste período, sendo considerado o Pai da Botânica.

Teophrastus (370-285 a.C.)

Historia Plantarum

Das 227 obras que chegaram aos nossos dias, duas delas são sobre Botânica: - A História Natural das Plantas (De Historia Plantarum), com posta por 9 livros; Sobre as Razões do Crescimento das Plantas (De causis plantarum) composta por 6 livros. Os livros eram muito gerais, as espécies eram referidas apenas ocasionalmente e em alguns dos casos nem se percebia de que espécie se tratava. Foram descritas entre 500-550 espécies. Foi divulgado o conceito de morfologia, classificação e história. Avançado para o seu tempo, Theophrastus introduziu a prática da aclimatação de plantas, introduziu novos termos técnicos, distinguiu diferentes formas de reprodução e de inflorescências, e estudou a germinação de sementes de várias espécies. 

Dioscórides foi um físico grego, que se tornou cirurgião militar de Nero, o Imperador Romano. O seu cargo militar permitiu-lhe fazer grandes viagens e assim estudar uma grande variedade de plantas. Na obra De Matéria Medica, são referidas as propriedades medicinais de mais de 600 plantas com algumas descrições botânicas, mas sem o caráter científico das obras de Theophrastus. Descreveu raízes, caules, folhas e por vezes flores. Após o trabalho de Dióscorides, com plantas de uso medicinal que vigorou até o sec. XVI, a botânica e a medicina tornaram-se indissociáveis. Os gregos foram mais tarde sucedidos por herbalistas e botânicos que mantiveram este período da história da classificação até a metade do século XVIII. 

Dioscorides de Anazarba (40-90 d.C.)

Página de título De Materia Medica por Pedanius Dioscorides, 1554. ( University of Virginia)

Os herbalistas

Eram médicos que deram grande contribuição ao estudo das plantas. Andrea Cesalpino (1519-1603) era um médico italiano. É um exemplo de um importante herbalista que possui alguns nomes de plantas em sua homenagem, por exemplo: Caesalpinia echinata (pau-brasil). Recentemente essa espécie foi renomeada de Paubrasilia echinata.

Pau Brasil vira gênero de árvore

Andrea Cesalpino (1519-1603)


Paubrasilia echinata (pau-brasil). 

Nesta época surgiram os primórdios da farmacognosia e as primeiras contribuições ilustradas. 

Sistemas Artificiais (séc. XVIII): essencialmente práticos, com poucos caracteres. Não levam em conta afinidades entre os organismos. Ex.: sistema sexual de Lineu (1707-1778). 

Sistemas Naturais (séc. XVIII e XIX): buscavam afinidades “naturais” entre os grupos, segundo um plano divino. Utilizam um número maior de caracteres. Lamarck, Bentham & Hooker, De Candolle, Jussieu. 

Dura até o advento do “Darwinismo” surge os Sistemas Filogenéticos (séc. XIX até hoje): baseados na FILOGENIA dos grupos: histórico de relações de táxons (famílias, gêneros, espécies, populações, etc.) através de ancestralidade e descendência (seguindo Darwin). Assim como aqueles antigos sistemas, os sistemas artificiais não encontram hoje qualquer aplicação. Um sistema artificial tem como único objetivo ser um meio conveniente de situar uma planta dentro de uma classificação e contribuir para a sua identificação. Não tem qualquer preocupação em mostrar relações de afinidades. 

O mais conhecido é o de Linné, (Carl F. von Linné, 1707-1778), publicado na obra “Species Plantarum” (1753), que ficou conhecido como “sistema sexual”, por ter sido o primeiro a dar grade ênfase aos caracteres florais. Em seu sistema, Lineu reconheceu 24 classes, a última delas formada por plantas sem flores (Cryptogamia). Para as classes com flores, os critérios utilizados foram principalmente o número de estames, soldadura e comprimento dos filetes, e o sexo das plantas, segundo o tipo de flores que ela apresenta (Monoecia, Dioecia, Polygamia). 

Linné, (Carl F. von Linné, 1707-1778)

Os sistemas filogenéticos procuram usar toda a informação disponível no momento a respeito dos táxomas envolvidos, procurando relacioná-los segundo uma afinidade baseada em ancestralidade e descendência.

Até a década de 1980, a Botânica foi dominada por um sistema evolucionista de classificação, baseado no grau de similaridades. Nem mesmo a difusão de teorias evolutivas no final do século XIX levou a mudanças significativas na classificação dos seres vivos. A evolução foi incorporada na sistemática como explicação para classificações naturais pré-existentes. 

Foi apenas após o estabelecimento da sistemática filogenética (Hennig 1965), que os táxons passaram a ser definidos por compartilharem características derivadas herdadas de um ancestral comum, as sinapomorfias. O princípio primordial da sistemática passou a ser a ancestralidade, e as classificações passaram a buscar o reconhecimento exclusivo de grupos monofiléticos (ou clados, daí o nome cladística para essa escola da sistemática). 

Sistemas de classificação filogenéticos ou cladístico – Nesse sistema o agrupamento dos organismos é de acordo com o grau de parentesco entre eles. Os cladogramas (ou árvores filogenéticas) demonstram as relações hipotéticas entre os organismos, levando em consideração a sua história evolutiva dos seres. As semelhanças entre os organismos são consequências da existência de um ancestral comum, a partir do qual os grupos divergiram ao longo do tempo. O grau de semelhança entre eles está relacionado com o tempo em que ocorreu a divergência. Os resultados de uma análise cladística são geralmente expressos na forma de cladogramas, ou seja, diagramas ramificados que expressam relações de parentesco entre os táxons incluídos na análise (chamados de terminais ou táxons terminais). Consiste, graficamente, de uma série de linhas (ramos) que conectam esses terminais. O encontro de ramos define um nó, que é considerado um ancestral hipotético do grupo definido por aquele nó. É importante ressaltar que cladogramas representam hipóteses sobre a filogenia de um grupo, ou seja, não é sua filogenia real e sua obtenção depende do método usado na análise. 

A sistemática à luz da genética molecular

Na atualidade a sistemática vegetal usa técnicas moleculares a partir da análises de variação no genoma de cloroplastos em particular, e, em menor extensão, de segmentos do genoma nuclear incrementaram grandemente nosso entendimento da filogenia das plantas em todos os níveis taxonômicos. Um dos objetivos centrais da sistemática tem sido inferir relações genéticas entre grupos de organismos. Uma vez que os dados moleculares (sítios de restrição e sequenciamento de bases nucleotídicas do DNA) provêm o genótipo do organismo, eles fornecem uma evidência mais precisa das relações de parentesco do que podem fazer os caracteres fenotípicos, que podem ser modificados pelo ambiente. Além disso, a homologia de caracteres moleculares é tipicamente mais facilmente alcançada. Atualmente, sequencia de rbcL do genoma de cloroplastos podem ser analisados para a reconstrução das relações filogenéticas entre famílias, ordens e níveis hierárquicos superiores, enquanto sequências nucleares de genes de RNA ribossômicos fornecem informações mais adequadas em nível de gênero e espécie. rbcL é uma grande subunidade do DNA circular do cloroplasto, responsável pela codificação da enzima ribulase-bifosfato-carboxilase oxigenase, importantíssimos nas relações de fixação do carbono durante a fotossíntese). Os dados obtidos com o sequenciamento de nucleotídeos têm sido analisados através dos rigorosos métodos cladísticos. Dentre as Angiospermas, duas linhagens principais na árvore de rbcL correspondem, não aos tradicionais grupos de mono e dicotiledôneas, mas aos grupos produtores de pólen uniaperturado versus produtores de pólen triaperturados. 

Hoje em dia o sistema de classificação utilizado por pesquisadores e estudiosos em Botânica em boas partes das universidades brasileiras é o Sistema de APG (Angiosperm Phylogeny Group), um sistema que revolucionou a classificação botânica ao propor a divisão das Angiospermas em grupos diferentes dos tradicionais sugeridos em outros sistemas de classificação. De acordo com este sistema as Angiospermas estão divididas em quatro grandes grupos: Angiospermas basais, Magnoliídeas, Monocotiledôneas e Eudicotiledôneas. O APG publicou seus trabalhos a partir de 1993, tendo divulgado a classificação mais recente em 2009 (APG III). A tendência hoje em dia com as análises filogenéticas é tentar resolver alguns clados sem grande sustentabilidade em níveis hierárquicos mais inferiores uma vez que em níveis hierárquicos superiores o posicionamento da maioria dos grupos já está sendo considerado estável. 

Classificação por cladograma do reino Plantae

Sistema de Cronquist (1968, 1981, 1988): Esquema das supostas relações evolutivas entre as subclasses de angiospermas. 

Árvore filogenética (cladograma) mostrando as relações entre os taxa de Angiospermas. Análise foi baseada em dados moleculares (sequências de regiões do DNA). Sistema de classificação do APG II.


Referências: 

Sistema de classificação

BARROSO, G. M.; GUIMARÃES, E. F.; ICHASO, C. L. F.; COSTA, C.G.; PEIXOTO A. L. Sistemática das angiospermas do Brasil. Viçosa: UFV, Imprensa Universitária, 2002 (v.1); 1991 (v.2); 1991 (v.3).

CRONQUIST, A. The evolucion and classification of flowering plants. 2ª ed. New York: The New York Botanical garden, 1988.

terça-feira, 16 de março de 2021

Plantas que mentem

Em tempos de fakenews, eu encontrei esse artigo e pensei ser interessante compartilhar com meus alunos de Organografia e Sistemática Vegetal. Segue texto na íntegra.

A polinização cruzada é a troca de genes através do pólen entre distintos indivíduos da mesma espécie, tem muitas vantagens, dizem os livros. As duas mais importantes serão: 1) a redução do risco da expressão de genes que de algum modo reduzem o sucesso reprodutivo dos indivíduos (fitness darwiniana); 2) a aceleração das taxas evolutivas. Teoricamente, as plantas alogâmicas (de polinização cruzada) solucionam com mais facilidade do que as autogâmicas (as que se autopolinizam) a grande ameaça que paira sobre todos os seres vivos: a eterna mutabilidade deste mundo.
As plantas sendo imóveis durante a maior parte do seu ciclo de vida "encontraram" uma solução engenhosa para a trocarem genes entre si: através da oferta de recompensas alimentares cativaram animais (agentes de polinização) para realizar o transporte de pólen de flor em flor. O pólen e o néctar são os tipos de recompensa mais frequentes. Para sinalizarem a presença destes alimentos aos polinizadores as plantas "desenvolveram" sinais visuais (forma e cor das pétalas), tácteis (papilas) ou odoríferos (moléculas análogas às feromonas dos insetos fêmea) O mutualismo planta-polinizador acelerou as taxas evolutivas quer das plantas quer dos animais polinizadores, facto que explica, pelo menos em parte, o sucesso (a abundância) das plantas com flor e de alguns grupos de insetos (himenópteros).
A oferta de recompensas é o pagamento do serviço polinização é energeticamente muito caro. A edificação de nectários e estames, e o fabrico de néctar e pólen implicam produzir menos folhas, menos caules e menos raízes. Crescer menos arrasta o enorme risco de ser menos competitivo do que o vizinho do lado, um inimigo que combate, sem tréguas, por espaço e recursos. As plantas enfrentam um problema análogo ao nosso quando entramos num supermercado: gastar todo o dinheiro em peixe rico em omega 3 implica não ter batatas para engrossar a sopa ou pão para o pequeno-almoço (é assim que se referem ao café da manhã em Portugal). A polinização cruzada tem, portanto, um enorme custo de oportunidade evolutivo.
O elevado custo das recompensas incrementa a probabilidade do sucesso de soluções alternativas ao mutualismo planta-polinizador. A autogamia - por exemplo através do desenvolvimento de flores cleistogâmicas (que se fecundam a si próprias antes de abrirem ao exterior) - é uma solução frequente. Outra hipótese é optar por vectores físicos de polinização como o vento (novamente com enormes custos energéticos). Porém, melhor, é findo o serviço de polinização não pagar a conta. Por outra palavras: mentir aos polinizadores.
A polinização fundada na mentira é conhecida por polinização por engano. Os botânicos reconhecem dois tipos de polinização por engano:
· Polinização por engano sexual (“sexual deceit”) – as flores mimetizam as feromonas sexuais e/ou os sinais visuais e tácteis de insetos fêmeas; os insetos machos são usados como veículo de pólen quando visitam e tentam copular (pseudocópula), por engano, com a flor; sistema muito conhecido das orquídeas;
· Polinização por engano alimentar (“food deceit”) – as flores assinalam a presença de recompensas alimentares inexistentes; as espécies que seguem esta estratégia imitam a forma e os odores de espécies que oferecem recompensas.
A mentira está generalizada na Natureza; compensa até ao momento que as vítimas aprendem a distinguir os impostores dos ingénuos que nunca enveredaram pelos caminhos do embuste. As relações mutualistas - por definição relações entre indivíduos de diferentes espécies com ganhos de parte a parte - geram tensões evolutivas que podem ser quebradas a qualquer momento. Mas a estratégia de polinização com vectores animais sem sexo nem comida também tem os seus riscos. Por alguma razão os caloteiros são menos frequentes do que os cumpridores da ordem estabelecida.

A Plumeria rubra (Apocynaceae), uma árvore centro-americana, não oferece recompensas às borboletas noturnas polinizadoras, engana-as mimetizando o odor e a forma de outras espécies falaenófilas com recompensas [foto C. Aguiar, tirada nos belíssimos jardins de Goiânia, Goiás]

Ophrys apifera: polinização por engano sexual. https://species.wikimedia.org/wiki/Ophrys_apifera


Ophrys abeille imita fêmeas: polinização por engano sexual.
https://www.pinterest.se/pin/420312577696583334/

Postagem Publicada originalmente por 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Planta tóxica pode causar uma das piores dores do mundo até 1 ano após a picada com seus pelos urticantes



Gympie-Gympie não é um nome comum que você esperaria encontrar em uma planta. Mais incomum ainda é a dor que ela provoca se você se espetar com algum de seus espinhos em formato de pelos.


Ela parece ser bastante inofensiva, mas a Gympie-Gympie (espécie Dendrocnide moroides) é uma das plantas mais venenosas que existem no mundo. Elas são comumente encontradas nas florestas tropicais do nordeste da Austrália, nas Ilhas Molucas e na Indonésia, podendo alcançar até 2 metros de altura.

Se espetar na árvore pode ser tão perigoso que cães, cavalos e até mesmo humanos morrem após a terrível experiência. Se você tiver sorte em sobreviver, você sentirá uma dor absurdamente forte que pode durar vários meses. Além disso, a dor pode reaparecer após anos. Suas toxinas são tão poderosas que, mesmo sendo seca, moída e guardada por 100 anos, pode causar severas dores em quem entrar em contato com o pó.

Apenas as raízes são inofensivas. Todo o resto da planta é considerado mortal e suas folhas possuem formato de coração. Toda a planta possui minúsculos pelos urticantes em formatos de agulhas hipodérmicas, incluindo seus frutos avermelhados. Você precisa apenas tocar levemente a planta para ser espetado, recebendo uma dose da toxina chamada moroidina.


Botânicos relatam que apenas estando próximo da planta é possível começar a espirrar, ter prurido, erupções cutâneas e sangramentos através de pequenos pelos que podem se soltar da planta e sair “voando” com o vento.

De acordo com o virologista Dr. Mike Leahy: "A primeira coisa que você vai sentir é uma sensação de queimação muito intensa e isso cresce durante a próxima meia hora, tornando-se mais e mais dolorosa”.

Ele prossegue: "Pouco depois, as articulações podem doer, e você pode ter grande inchaço nas suas axilas, o que pode causar uma dor extremamente forte. Se você não remover todos os pelos que entraram na sua pele, as toxinas continuam sendo liberadas, causando dores torturantes por até um ano”.

O Gympie-Gympie é uma surpresa desagradável e inesperada nas florestas, causando acidentes com topógrafos, madeireiros e silvicultores. Mesmo botânicos experientes que já conhecem a planta, por vezes, tornam-se vítimas.

Os profissionais que lidam com a planta usam luvas muito grossas, máscaras de respiração e comprimidos anti-histamínicos, além de roupa especial para proteger todo o corpo.


"Ser picado é o pior tipo de dor que você pode imaginar - como ser queimado com ácido quente e eletrocutado ao mesmo tempo", disse a entomologista e ecologista Marina Hurley, que foi picada após morar três anos em Queensland, na Austrália. Ela era uma estudante de pós-graduação na Universidade James Cook na época e investigava herbívoros que comem árvores urticantes.

"A reação alérgica desenvolvida ao longo do tempo, causou coceira extrema e enormes e buracos na pele que tiveram que ser tratadas com fármacos potentes. Nesse ponto, o meu médico aconselhou que eu jamais deveria voltar a estudar esta planta”.

Uma das primeiras pessoas a documentar os efeitos adversos da picada da Gympie-Gympie foi um morador de Queensland, que relatou que seu cavalo, após ser picado pela planta, começou a se comportar como louco e morreu após 2 horas, em 1866.

Em 1994, o australiano Cyril Bromley descreveu a experiência após ter caído em cima de uma árvore. Ele ficou amarrado por três semanas na cama do hospital por não conseguir se controlar pelas dores. Todos os tipos de tratamentos e medicamentos foram usados, mas nada surtia efeito. Ele descreveu a dor como a mais terrível que um humano pode sentir, comentando também que um dos oficiais se matou depois de usar a folha para se higienizar após defecar e não suportar as dores.

A maioria das curas conhecidas para uma picada de Gympie-Gympie são bastante rudimentares. Analgésicos são geralmente prescritos para exposições menores à planta. Se o paciente entrou em contato com muitos pelos, recomenda-se depilar toda a região a fim de arrancar os minúsculos pontos injetores de toxina.

Curiosamente, o exército britânico mostrou interesse nas propriedades do Gympie-Gympie e suas aplicações no final do ano 1968. Um laboratório de química ultrassecreto do exército contratou Alan Seawright, professor de patologia da Universidade de Queensland, para conseguir amostras da planta, informando que a intenção era a pesquisa de uma nova arma biológica: “Eu nunca ouvi nada mais sobre isso após fornecer as amostras, então, acho que nunca saberemos o que eles fizeram ao estudar a planta”, afirmou Alan.


Fonte:

sábado, 4 de abril de 2015

Brachiaria e/ou Urochloa: dando nomes às plantas


“Normas para classificar”, serve para organizar os organismos vivos e com isso facilitar o estudo e identificar relações entre os indivíduos

     
Cacilda Borges do Valle
09/08/2010


A taxonomia, palavra de origem grega que significa “normas para classificar”, serve para organizar os organismos vivos e com isso facilitar o estudo e identificar relações entre os indivíduos. Assim, cada planta ou inseto, fungo ou animal ganha um nome e “sobrenome”, por exemplo: Brachiaria decumbens. A classificação segue uma hierarquia e a mais alta é o Reino (Animal, Vegetal ou Mineral), seguem-se os Filos, Classes, Ordens, Família, Gênero e Espécie. Dessa forma os capins pertencem à família Poaceae e a gêneros como Panicum, Brachiaria, Pennisetum. O “sobrenome’ é a espécie, como por exemplo, o colonião é Panicum maximum, e o brizantão é Brachiaria brizantha.
Como então são feitas as classificações? Os taxonomistas – assim se chamam os especialistas em organizar os indivíduos em espécies, gêneros, etc. – estudam as características morfológicas e as comparam com as já descritas para indivíduos semelhantes, ou então, em se tratando de planta ou animal nunca descrito, iniciam uma nova descrição. A grande maioria dos organismos já foi estudada e descrita mas novas formas podem aparecer e revisões se mostram necessárias para adequá-las ou agrupá-las de outra maneira.
Com o gênero Brachiaria não foi diferente. Esses capins que com certeza cobrem as maiores áreas de pastagens tropicais no mundo já fizeram parte do gênero Panicum – aquele do capim colonião - quando primeiramente descritas por Trinius em 1834. Depois, em 1853, outro especialista, Grisebach, elevou Brachiaria à categoria de gênero contendo hoje cerca de 100 espécies distribuídas pelos trópicos, mas especialmente na África. A característica principal que distingue Brachiaria de Panicum são suas espiguetas de forma ovalada, arranjadas em rácemos unilaterais, com a gluma inferior adjacente à raquis (Figura 1). Só que nem sempre os taxonomistas concordam e às vezes, essas características são consistentes por todas as espécies do gênero e por isso aparecem os questionamentos. Recentemente países como a Austrália e Estados Unidos reclassificaram quase todas as espécies de Brachiaria para o gênero Urochloa (Figura 2) seguindo trabalhos de revisão por autor australiano (Webster), autores argentinos (Morone & Zuloaga) e depois autora colombiana e autor americano (Gonzalez & Morton). Porém as evidências apresentadas nos trabalhos acima ainda conservam controvérsias e não explicam contundentemente as diferenças visíveis, por exemplo, entre Panicum maximum e Brachiaria decumbens, colocando-os sob o mesmo gênero Urochloa. Além disso, os trabalhos mais recentes sugerem maiores estudos, inclusive usando vários marcadores moleculares, para melhor entender as relações entre essas espécies e gêneros. Por essas e por outras, no Brasil ainda se conserva a denominação Brachiaria, até que novos estudos sejam conduzidos e encontre-se justificativa inquestionável para proceder a mudanças. Existe todo um arcabouço legal no país como a Lei de Sementes e a Lei de Proteção de Cultivares feitas para Brachiaria e que em caso de mudança necessitaria serem revistas, por perigo de não mais se poder registrar campos de produção de sementes ou cultivares protegidas junto ao Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento. E como ficariam as cultivares já protegidas, ou o comércio de sementes e mesmo os produtores já tão acostumados com a braquiária???
São considerações relevantes a serem observadas e qualquer atitude deverá ser ponderada com muito bom senso e embasada em robusta informação científica. Até então, nos parece razoável que usemos a estratégia de “sinonímia” sempre que publicarmos trabalhos com espécie do complexo Brachiaria-Urochloa para que toda a comunidade científica tenha acesso irrestrito a toda a informação gerada. Para tanto basta escrever Brachiaria (Syn. Urochloa) ou vice versa. Gostaria muito de ouvir a opinião dos ilustres leitores pois uma discussão na comunidade científica deverá ocorrer em breve. Basta enviar um e-mail paracacilda@cnpgc.embrapa.br e sua contribuição será muito bem vinda.



Florescências de Brachiaria ruziziensis (esquerda), B. brizantha (meio) e B. decumbens (direita) ilustrando rácemos (ou ramos) com espiguetas de um só lado: com 7, 4 e dois rácemos da esquerda para direita. Detalhe de B. humidicola cv. BRS Tupi mostrando as espiguetas com longos pelos (tricomas) e com a gluma inferior (1) adjacente a ráquis e gluma 2 virada para fora.



Urochloa mosanbicensis (capim corrente) conforme ilustração no livro “Guide to grasses of South Africa” por Frits van Oudtshoorn, Briza Publikasies CE, Pretoria, 301p. 1992.



terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Pioneira da botânica no Brasil

Você já ouviu falar da Dra. Graziela Maciel Barroso?
Graziela Maciel Barroso nasceu dia 11 de abril de 1912. Sua vida como mulher e mãe começou bastante cedo, aos 16 anos se casou com o agrônomo Liberato Joaquim Barroso, teve o primeiro filho aos 18, a filha aos 19 e aos 37 anos ficou viúva. A sua vida de pesquisadora foi compartilhada com a da mulher, dona de casa e mãe.
Em 1945, antes mesmo de obter o título de bacharel em 1961 pela Universidade do Estado da Guanabara, prestou concurso para o cargo de naturalista do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Foi a primeira mulher a concorrer a este cargo, no qual foi aprovada em segundo lugar.2
 Em 1950, Graziela ingressou como sócia efetiva na Sociedade Botânica do Brasil.  Em 1973 obteve o título de Doutora pela Universidade Estadual de Campinas. Exerceu atividade de chefe da Seção de Botânica Sistemática e Curadora do Herbário do Jardim Botânico,  onde incrementou o intercâmbio científico com outras instituições nacionais e estrangeiras. Foi professora de Botânica e Chefe do Departamento de Biologia Vegetal da Universidade de Brasília desde sua criação até 1969.
Exerceu docência e orientação nos cursos de pós-graduação em Botânica da UFRJ, UFPR, Unicamp e UFPE, tendo orientado 60 dissertações de mestrado e 15 de doutorado. Ministrou 75 cursos de especialização ou extensão em Universidades e/ou instituições de pesquisas brasileiras e proferiu 112 conferências e palestras.  Sua grande e regular produção científica consistiu em mais de 65 artigos em periódicos especializados, predominantemente no campo de Sistemática Vegetal, tratando principalmente das famílias botânicas Araceae, Compositae, Dioscoriaceae, Leguminosae e Myrtaceae e 4 livros como autora principal.3
Entre as muitas homenagens recebidas destacam-se:
1)     4 Condecorações: Medalha de Mérito D. João VI, Comemorativa do Sesquicentenário da Fundação do Jardim Botânico do RJ (1958), o Titulo de Cidadã do Estado do RJ, concedido pela Assembléia Legislativa do Estado do RJ (1980), Grau de Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito Educativo do Ministério da Educação e Desportos, as Insígnias e o Diploma da Ordem Nacional do Mérito Científico, na Classe Grã-Cruz;
 2) Áreas de instituições de pesquisa com o seu nome, como o Herbário ‘Graziela Barroso’ fundado em 1977 na Universidade Federal do Piauí, o ‘Pavilhão Graziela Maciel Barroso’ (1989) na Área de Botânica Sistemática do Jardim Botânico do RJ, casa de vegetação ‘Graziela Barroso’, na Fundação Sitio Roberto Burle Marx;
3) Um gênero de plantas e 30 espécies descritas em alusão ao seu nome. Em julho de 99, no Congresso Internacional de Botânica, realizado em St.Louis, (USA) recebeu a medalha ‘Millenium Botany Award’.
Foi homenageada também por muitas turmas de formandos em cursos de graduação como paraninfa ou patronesse. Seu livro “Sistemática de angiospermas do Brasil” é uma referência internacional sobre o assunto, sendo adotado em todas as universidades brasileiras. Eleita para a Academia Brasileira de Ciência, sua posse estava marcada para o dia 4 de junho de 2003, mas faleceu no dia 5 de maio daquele ano.
Graziela foi uma grande mulher, que até os dias de hoje ensina muitos jovens, mesmo que sendo por livros e por pesquisas realizadas. Uma mulher que dedicou-se totalmente ao mundo da pesquisa, sabendo que todo o esforço seria recompensado. Hoje graças a essa pesquisadora temos conhecimento e informações importantíssimas para o desenvolvimento da ciência na área da Botânica.
Obrigado Graziela, Obrigado por ter sido essa grande Mulher.
Fonte: https://museudinamicointerdisciplinar.wordpress.com/tag/graziela-maciel-barroso/

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A intensa vida sexual das plantas

Vegetais competem por oportunidades de acasalamento e ‘escolhem’ seus parceiros sexuais. Artigo de capa da Ciência Hoje mostra como essas estratégias reprodutivas evoluíram ao longo do tempo, gerando flores de cores, formas e cheiros variados.
Por: Carlos Roberto Fonseca
Publicado em 13/02/2014 | Atualizado em 13/02/2014
A intensa vida sexual das plantas
As plantas exibem imensa diversidade sexual: em algumas, é possível reconhecer claramente machos ou fêmeas, mas na maioria delas os indivíduos exercem tanto o papel feminino quanto o masculino. (foto: Sxc. hu)
Em se tratando de sexo, as plantas são escandalosamente liberais. Muitas só fazem sexo consigo mesmas. Outras fazem sexo simultaneamente com vários vizinhos ou com parceiros casuais que vivem a centenas de quilômetros de distância. Em algumas plantas, é possível reconhecer claramente machos ou fêmeas, mas na maioria dos vegetais os indivíduos exercem tanto o papel feminino quanto o masculino.
Muitas espécies ostentam órgãos sexuais exageradamente avantajados e coloridos, e fazem questão de exibi-los
Algumas plantas, sem nenhum pudor, trocam de sexo durante a vida. Outras são ‘conservadoras’ e se recusam a fazer sexo com indivíduos aparentados, e há ainda as que nunca fazem sexo. Muitas espécies ostentam órgãos sexuais exageradamente avantajados e coloridos, e fazem questão de exibi-los. Mas também é verdade que algumas plantas têm aparelhos sexuais minúsculos ou ocultos.
A evolução dessa grande diversidade reprodutiva deve-se a intensas disputas sexuais entre os indivíduos. Esses embates vêm sendo confirmados, mas por muito tempo foram desconhecidos – até pelo maior evolucionista de todos, Charles Darwin (1809-1882) – ou contestados. Pesquisas mais recentes constataram não apenas que a seleção sexual é uma força importante na evolução e diversificação das plantas superiores, mas também que a variedade é essencial para o funcionamento de comunidades vegetais na natureza e para atividades humanas, como a agricultura, a jardinagem e as indústrias de madeira, alimentos e medicamentos.

A chave do enigma 

Ao elaborar sua teoria da evolução por meio da seleção natural, Darwin enfrentou uma grande dificuldade teórica: como explicar que, além de apresentar diferenças em seus aparelhos reprodutivos (características sexuais primárias), machos e fêmeas exibem óbvias diferenças em outros aspectos de seu corpo e em seu comportamento, chamadas de características sexuais secundárias?
Por que os leões são maiores que as leoas? Por que pavões machos exibem plumas longas e ornamentadas, enquanto as fêmeas dessas aves são basicamente cinzentas? Por que os alces irlandeses machos, extintos na última era glacial, exibiam galhadas de até 3,5 m, inexistentes em fêmeas? Por que os sapos machos cantam e as fêmeas se calam? Para Darwin, a seleção natural, por agir de modo semelhante nos dois sexos, não podia explicar a evolução das características sexuais secundárias. Afinal, machos e fêmeas em geral vivem no mesmo lugar e sob o mesmo clima, comem a mesma comida e são atacados pelos mesmos predadores e parasitas.
Darwin reconheceu dois principais mecanismos de seleção sexual: ‘competição entre machos’ e ‘escolha pelas fêmeas’
O conceito de ‘seleção sexual’ foi a chave encontrada por Darwin para resolver o enigma. Segundo ele, a seleção sexual seria a “vantagem que certos indivíduos têm sobre outros indivíduos do mesmo sexo e espécie exclusivamente em relação à reprodução”. Esse conceito, embora proposto por Darwin em 1859, no livro A origem das espécies por meio da seleção natural, só seria discutido a fundo por ele em 1871, no livro A origem do homem e a seleção sexual.
Darwin reconheceu dois principais mecanismos de seleção sexual: ‘competição entre machos’ e ‘escolha pelas fêmeas’. Na competição entre machos, estes lutam entre si, em combates diretos (às vezes mortais) ou por meio de ritualizações (exibições físicas, rituais de cortejo e outras), para ter acesso a mais e melhores oportunidades de acasalar. Na escolha pelas fêmeas, estas comparam a qualidade dos machos disponíveis, com base no aspecto físico ou no comportamento, e escolhem os aparentemente mais fortes ou mais saudáveis como parceiros reprodutivos.
Esses mecanismos foram descritos a partir de comportamentos de disputas, brigas, cantos, danças, discriminação, gostos e escolhas que pareciam, a princípio, exigir um mínimo de movimentação, capacidade mental e percepção. Assim, embora o conceito de seleção sexual tenha sido um avanço extraordinário para a teoria da evolução, ele ficou restrito ao reino animal. Um século se passou até que a biologia conseguisse aplicar o conceito de seleção sexual às plantas.

Guerra do sexo 

Em 1979, um artigo pioneiro – ‘Seleção sexual em plantas’ – foi publicado pela ecóloga norte-americana Mary F. Willson, apontando evidências científicas de que tanto a competição entre machos quanto a escolha pelas fêmeas são importantes forças evolutivas também para as plantas, e que a imensa diversidade de flores decorre desses processos. 
pólen
Os grãos de pólen levados pelo vento, por insetos ou por outros meios, precisam enfrentar disputas para fertilizar os óvulos. (foto: Sxc. hu)
O trabalho quebrou a visão ingênua de que plantas da mesma espécie colaboram entre si para reproduzir e competem apenas com as de outras espécies pelos polinizadores.
A competição evolutivamente importante ocorre entre indivíduos geneticamente diferentes da mesma espécie e, em particular, entre os do mesmo sexo. As outras espécies apenas modificam a arena ecológica onde ocorre o embate evolutivo.
Quando chega a estação reprodutiva de determinada espécie de árvore, há um conflito aberto por sucesso reprodutivo. Alguns indivíduos, porque são maiores, mais vigorosos e com adaptações que favorecem seu sucesso reprodutivo, conseguirão aumentar a frequência de seus genes na próxima geração. Os menos favorecidos tenderão a ser eliminados pela seleção sexual. Ou seja, a ‘guerra do sexo’ é intensa mesmo entre espécies que não se movem e não têm um comportamento evidente, como as plantas.
Você leu apenas o início do artigo publicado na CH 311. Clique no ícone a seguir para baixar a versão integral. PDF aberto (gif)

Carlos Roberto Fonseca
Departamento de Ecologia
Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Fonte: http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2014/311/a-intensa-vida-sexual-das-plantas

sábado, 17 de dezembro de 2011

E por falar em cerrado...


Eu sou o cerrado.

            Domino, abraço e protejo quase 2 milhões de Km2 do meu país, ou seja, 23% do território de minha pátria. Sou, assim, a Segunda maior formação vegetal da América do sul, depois do conjunto florestal amazônico.
            Algumas unidades de nossa federação dependem de mim para seu desenvolvimento ou mesmo sobrevivência. Em Goiás, cubro 88% de seu espaço geográfico; em Minas Gerais, 53%, no conjunto Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, 39%; no Maranhão, 30%. É, porém, no Distrito Federal que não permito concorrência – estou presente em 100% de seu território.
Concentro-me principalmente no Planalto Central do Brasil, onde o solo, o clima, as altitudes e o relevo favoráveis me permitiram permanecer, mas apareço sob a forma de manchas em quase todo o espaço tropical brasileiro.
            Sou acusado de monótono em minhas características. Árvores pequenas, que muito raramente chegam a 8 metros de alturas, folhas grandes e geralmente espessas, troncos e galhos tortuosos, cascas grossas e cortiças. Um tapete de gramíneas, de arbustos, e subarbustos, com uma certa descontinuidade, cobre e protege o meu chão.
            Minhas árvores são bastante afastadas uma das outras e suas copas quase nunca se tocam. Assim, abro-me para o céu, o sol beija minha terra e enxergo amplos horizontes.
Ali, minhas árvores são bem mais baixas, guardam maior distância entre si, as gramíneas são mais contínuas e os arbustos mais freqüentes – sou o cerrado ralo ou campo cerrado.
Além, sou dominado pelas gramíneas, arbustos e subarbustos, as árvores desaparecem – sou o campo sujo.
            Mais à frente, as gramíneas imperam de maneira quase absoluta, formando os meus campos limpos.
Em meu domínio aparece também o cerradão, que é uma das mais belas florestas do Brasil, com árvores que chegam a 18 metros de altura, muitas das quais comuns às minhas formações típicas, mas com troncos retilíneos e cascas um pouco mais delgadas.
Os estratos herbáceos, arbustivos e arbóreos são bem mais distintos; o chão é sombreado, o que faz rarear as gramíneas.
            A vereda, com toda razão muito vaidosa, já está pensando que dela vou me esquecer. Não poderia deixar de me lembrar da mãe de minhas águas, do mais belo espetáculo cênico do mundo tropical. É o meu oásis, só que de maior beleza que o saariano.
            Observem-me mais atentamente e verão que exibo, durante todo o ano, as mais belas flores do Brasil, flores para enfeitar a minha vida e a de quem ama o belo.
            Minha idade? Está guardada somente na memória dos tempos. Sou uma das mais antigas formações vegetais do Brasil. Vi nascer a luxuriante floresta amazônica, pois lá estava quando ela chegou. Um clima cada vez mais úmido fez com que eu lhe cedesse lugar, recuando às minhas antigas fronteiras, no Planalto Central, deixando ali apenas alguns núcleos, testemunhos do meu antigo império.
            Passei por vários climas, solos os mais variados, adaptei-me a múltiplos ambientes, através de uma constante seleção de minhas espécies e reações fisiológicas verdadeiramente milagrosas.
            Vi os primeiros homens chegarem, vindos de outros continentes. Ofereci-lhes abrigo, frutos, caça fácil e as penas de meus pássaros lhe serviram de ornamento.
            Acolhi em meu vasto coração os homens ditos civilizados. Não fui egoísta. Ofereci alimentos para os seus rebanhos e para eles próprios, dei-lhes madeira para os seus currais e cercas, folhas e embira de buriti para a construção de suas casas, lenha para seus fogões e rios que lhes conduziam ao Atlântico.
            Com os chamados civilizados veio o fogo induzido e sistemático, o que me obrigou a novas adaptações, quando então muitas de minhas espécies desapareceram, mas, com grande esforço, não perdi a minha identidade.
            Resisti galhardamente à “Maria-Fumaça”, aos vapores do rio São Francisco, aos fogões caseiros, sempre sedentos de lenha. Mas foi a partir de meados deste século que meu mundo começou a se desmoronar. Vieram as usinas siderúrgicas que tinham como base energética o carvão vegetal. Minhas árvores começaram a ser dizimadas, assassinadas numa extensão e rapidez nunca vista, através de uma verdadeira política de terra arrasada. Meus animais praticamente desapareceram, pois ficaram sem alimento, sem abrigo e sem refúgios, bem à vista de caçadores impiedosos.
            As grandes estradas começaram a aparecer. Com elas vieram as famosas caixas de empréstimos, o decapeamento de meus morros para encascalhamento de seus pisos; os cortes das ondulações de meu terreno, sem sustentação dos taludes; os barramentos e a morte das veredas pelos aterros, tudo isto contribuindo fortemente para o arruinamento de meus solos e de meus rios.
            O pior ainda estava por chegar; a implantação de florestas homogêneas em grandes áreas do meu domínio. Também desta vez nada foi respeitado. Topos de chapadas e de morros, vertentes, veredas, fontes; tudo foi tomado de assalto. A erosão aumentou, pois só as gramíneas tinham capacidade de segurar o meu solo, sempre mais arenoso do que argiloso. Minha fauna foi mais uma vez sacrificada e as veredas perderam sua função ecológica de genitora das águas e de paraíso dos animais.
            Mas outra calamidade veio chegando rápida e em grande extensão: a lavoura comercial monocultora. Esta, ao invés de adaptar-se a meus solos, adaptou meus solos aos produtos de sua conveniência. Adubos químicos e orgânicos, calagem, inseticidas, herbicidas, fungicidas, tudo contrariando minha natureza, pois nada teve o controle devido. As lâminas de tratores gigantes rasgaram fundo minha alma; arrancaram pelas raízes os meus viventes vegetais; desestruturaram o meu solo, sem qualquer consideração por meus princípios de vida. Com a utilização de meu terreno para outros fins, o superpastoreiro passou a ser uma prática nefasta, especialmente nas superfícies de solos mais instáveis. Como resposta a tudo isto, a desertificação, em alguns de meus endereços, tem sido a terrível realidade.
            Não posso terminar a minha fala, sem dizer aos homens que sou o pai das águas do Brasil, a grande caixa d’água nacional. Abram qualquer mapa hidrográfico de meu país. Observem e verão que de minhas entranhas saem quase todos os afluentes da margem direita do Amazonas, o Araguaia e o Tocantins; o São Francisco e seus principais afluentes; a maioria dos tributários do Paraguai e ele próprio, ocorrendo o mesmo com o Rio Paraná, o Paraguaçu e muitos outros rios das bacias nordestinas.        Não é necessário que eu ensine aos humanos que, ao desequilibrar-se a cabeceira de um rio, desequilibrar-se todo o seu curso; ao desequilibrar-lhe o curso, desequilibrar-se toda a bacia hidrográfica.
            Senhores racionais, senhores donos do mundo, não sou contra a minha utilização para a satisfação de suas necessidades. Creio que, ao longo de minha história, provei isto de maneira inquestionável. Ao contrário, quero continuar sendo generoso. Para isto, aqui vai o meu grande apelo; um apelo quase desesperado: ESTUDEM-ME, CONHEÇAM-ME, RESPEITEM-ME. Façam um zoneamento ambiental de meu espaço, deixem lugar para meus animais, separem bancos genéticos de minhas espécies, protejam minhas áreas críticas; preservem amostragens de meus ecossistemas, cuidem bem de minhas coleções de água, especialmente de minhas veredas; resgatem os meus 500 anos de cultura que surgiu de nossa conveniência e que formou uma verdadeira civilização. Enfim, AMEM-ME e eu prometo ser-lhes dadivoso de agora até a eternidade.
                                                                                                                 Ivo das Chagas

Nota sobre o autor: 


Nascido em 1933, no município de São Romão (Norte de Minas), o professor Ivo das Chagas era graduado em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-graduação em Geografia e Ecologia Vegetal pela Universidade de Bordeaux (França).

Em 2006, foi homenageado como Professor Emérito da Universidade. Em 2011, foi homenageado como Patrono Geral de todos os cursos de graduação da Unimontes. Ivo das Chagas foi coordenador do programa de Educação Ambiental da Secretaria Especial do Meio Ambiente do Ministério do Interior (1982), membro do Conselho Consultivo Interministerial de Ciência e Tecnologia do Grande Carajás (1982), secretário-adjunto de Ecossistema, da Secretaria Especial de Meio Ambiente do Ministério do Interior (1983/1984) e conselheiro da Câmara de Bacias Hidrográficas do Conselho Estadual de Política Ambiental – Copam (1988/1989).

Foi integrante do Instituto Histórico e Geográfico (IHG) de Montes Claros. Em 2011, ele recebeu a Medalha da Inconfidência, do Governo do Estado. Professor emérito da Unimontes, Ivo das Chagas, foi reconhecido como um dos maiores estudiosos sobre Cerrado no Brasil e a Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, com trabalhos de referência mundial sobre a geografia tropical, ecologia vegetal, cartografia e organização do espaço. Na Universidade, atuou como docente da então Fundação Norte Mineira de Ensino Superior (FUNM), posteriormente no Departamento de Geociências, foi pró-reitor de Pesquisa e coordenador do campus de Pirapora. Teve atuação destacada também em órgãos e cargos públicos dos governos federal e estadual.

Faleceu em 16/03/2018, aos 85 anos, em Montes Claros, Minas Gerais.


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